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"PARA ONDE VOAM AS FEITICEIRAS" abrirá 9º Olhar de Cinema


“PARA ONDE VOAM AS FEITICEIRAS”, longa documentário híbrido dirigido de forma coletiva por Eliane Caffé, Carla Caffé e Beto Amaral, terá sua estreia no Brasil como filme de abertura da 9ª edição do Festival Olhar de Cinema em Curitiba, que acontecerá entre os próximos dias 7 e 15 de outubro. O filme também participa da Competição Internacional da 6a edição do Festival Queer Porto, entre os dias 18 e 26 de setembro em Portugal, após ter sido selecionado para a 32ª edição do Festival de Cinema Latino‑Americano de Toulouse em março de 2020. O filme é uma produção da Aurora Filmes, terceiro projeto da produtora dirigido por Eliane Caffé, uma coprodução com a Cisma Produções e tem distribuição no país da Descoloniza Filmes.


No documentário, sete artistas-ativistas autodenominadas “manas” - Ave Terrena Alves, Fernanda Ferreira Ailish, Gabriel Lodi, Mariano Mattos Martins, Preta Ferreira, Thata Lopes e Wan Gomez - ocupam as ruas do centro de São Paulo e transformam o espaço público em palco de improvisos cênicos com os transeuntes locais. Explodem as situações tragicômicas no modo como os preconceitos estruturais aparecem na vida da sociedade brasileira. O filme também reflete sobre a importância da resistência através das alianças políticas entre diversos coletivos identitários. Sobre a experiência, Preta Ferreira reflete: “Participar do filme foi um divisor de águas na minha vida. O filme me fez enxergar que sozinha não tem como fazer luta, e que nenhuma luta anula a outra, é preciso unificar as forças; eu posso sim, lutar junto a todes menorizades, para vencer o inimigo comum: a desigualdade, a necropolítica que nos mata a todos os instantes”.


Um filme de rua, construído de modo horizontal com artistas e ativistas que participam de movimentos de resistência LGBTQIA+ e/ou da negritude e que se expõem e interpretam a si mesmas ao longo do filme com enorme coragem. Nas palavras de uma das diretoras, Carla Caffé: “Nesse filme, foi possível aprofundar minhas pesquisas em atuar, de forma híbrida, entre o cinema e as artes, tecendo uma encenação apoiada em performances efêmeras e de dispositivos artísticos, para provocar e apoiar diálogos entre as manas, protagonistas do filme, e o mais variado público dos calçadões do centro de São Paulo. Câmera ligada, manas performáticas e dispositivos -– de fazer ver e fazer falar, ou falar sem ser visto –– o filme dá a voz e enquadra a diversidade de corpos que derivam hoje nas ruas do centro da cidade”.


Na tela, bastidores e encenações filmadas misturam ficção e realidade num único grande texto audiovisual tragicômico. Vozes, pensamentos e imagens circulam entre  personagens de mundos diferentes, que ora se chocam e entram em contradição, ora se apaziguam e se aliam. Um filme manifesto, cantado, recitado, disputado, improvisado e que, no próprio ato de ser realizado, enredou e aproximou territórios distantes como a aldeia Guarani do Pico do Jaraguá, uma ocupação urbana do MSTC e as ruas vizinhas de intenso comércio do centro de São Paulo ao cenário das encenações. E, se o processo de produção do filme fez Thata Lopez “trocar experiências com outras corpas em diversos níveis de profundidade”, também reverbera em Ave Terrena como “um gesto concreto de espantar o extermínio. Percebimento de si, através do poder de grupo”.


Ao longo das performances, nossas sete personagens demarcam o “ponto T” como lugar de trânsito da fala coletiva, onde desfila a variedade humana, com seus pré-conceitos, narcisismos, alegrias, repulsas, criatividade e humor. Mas, sobretudo, escancaram a urgência de existirem e resistirem – e permanece a esperança dessa aliança pela sobrevivência física e política de seus corpos no espaço tempo que lhes resta. E essa força do filme é definida nas próprias palavras do diretor Beto Amaral: “A existência do filme em si mesma servirá sempre de lembrança de que é possível sim criar alianças, assim como é possível aprender e mudar no exercício constante da escuta e do diálogo. O cinema ainda pode refletir sobre nossa condição humana, ainda pode criar um universo de imagens que nos inspire em nossa luta”.


Revoluções para fora, mas também para dentro. E é assim que percebemos o legado do filme nas protagonistas. Gabriel Lordi reflete sobre o processo de realização: “reunir pessoas tão diversas e com tanta elaboração acerca de suas vivências me fez repensar todo o meu eu. Somos todos seres em ciclos de reconstrução e poder ter uma pequena parte de cada um, de cada corpo que deixou sua experiência nessas imagens, como parte do ser humano que construo a cada dia, me fez e me faz mais inteiro e potente”. E suas sensações encontram eco nas palavras de Mariano Mattos Martins: “Foi uma grande ave que voou para dentro de mim e segue viva aqui batendo as suas asas e saindo aos poucos pela minha boca, pelos olhos e pelo coração. Foi coletivo e foi vertigem e foi pulsante, quente, e foi ainda mais. Eu morri e nasci. E agradeço”.



O filme é uma experiência coletiva desde a direção, que é assinada por um trio de diretores, passando pelo processo de criação narrativa entre os próprios diretores e as personagens até a produção em si, em que alguns profissionais desempenham mais de uma função na obra. O que não é uma proposta simples, nem fácil, como a Fernanda Ailish nos explica: “Para ser sincera, quando começamos com o projeto do filme eu tinha tantas dúvidas, como barreiras pessoais ou preconceitos no sentido de confiar argumentos tão fortes e ao mesmo tempo delicados nas mãos de pessoas cisgêneres, brancas e de classe social “privilegiada", mas, ao longo das reuniões, observando detalhadamente o processo de elaboração desta obra, observando a equipe nos laboratórios de criação e em outros momentos particulares fora da atmosfera elaborativa, os meus pré-conceitos se transformaram e pouco a pouco fui criando confiança no que estávamos fazendo!”. E é ela mesma quem completa: “Durante as gravações, as trocas de experiências corpóreas, espirituais, culturais e artísticas de um leque infinito de conhecimento e cores que nunca imaginei que poderia ver ou viver me fizeram rever dentro de mim e renascer mais uma vez de dentro pra fora e vi através dos corpos com divisas comigo neste processo que não estou sozinha nessa tempestade em mar aberto das nossas vidas, e aquilo que no começo eu via como barreiras se transformaram em estradas para percorrer, para me redescobrir em cada curva, compreender em cada pausa da exaustiva estrada já percorrida e dar um pouco ou tudo de mim a cada pessoa que encontrei e ainda vou encontrar”.


O resultado é um documentário híbrido, que flerta com a ficção, mas também um filme experimental – em forma, conteúdo e processo de realização. É o terceiro trabalho em que as irmãs Carla Caffé e Eliane Caffé trabalham juntas depois de “Narradores de Javé” e “Era o Hotel Cambridge”, em que Carla atuava como Diretora de Arte dos filmes dirigidos por Eliane. E é a estreia na direção de Beto Amaral, produtor da Cisma Produções. Sobre a opção pela direção coletiva, Eliane explica: “Depois de realizar “Era o Hotel Cambridge” com a eterna e rica parceria de arte e vida com minha irmã, Carla Caffé, imaginei como poderia ser feito um filme reverso ao anterior, em termos de cenografia e ambientação. Nas trocas iniciais com Carla, como sempre fazemos em cada novo projeto, saiu a ideia de, ao contrário do ambiente fechado de uma ocupação, lançar-nos às ruas da cidade; com toda a variedade de personagens e conflitos sociais que se amontoam em cada esquina. Nascia, assim, o nosso novo filme. Logo em seguida, buscamos a parceria com o Beto Amaral, também cineasta e produtor e grande entusiasta de experimentos ousados no cinema, além de conhecer bem a vasta filmografia no gênero. Pronto! Compusemos, assim, uma tríade de diretores complementares e que poderiam levar a cabo mais um feito de contrapartidas materiais e imateriais, em zonas de conflitos reais”.


O filme ainda conta com importantes participações especiais como Judith Butler, Pastor Henrique Vieira e Carmen Silva.


http://www.descolonizafilmes.com/



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