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  • Kelrrey

Parada LGBT em SP: Combatendo nossos medos


O dia em que acontece a Parada LGBT é pra mim sempre um dia rodeado de ansiedade. Desde a minha primeira Parada há 15 anos atrás isso acontece.


Tudo começava com uma espécie de preconceito interno que, na época, me deixava assustado ao ver Drag Queens passeando entre senhoras e crianças nos vagões de metro no dia da Parada.


Com o tempo, fui descobrindo que não se tratava de preconceito e sim de um terrível medo por elas, medo de vê-las sofrendo bulling ou mesmo um olhar de reprovação.


E isso nunca passou. Em todos os anos quando pegava o metro para ir a Parada LGBT, inconscientemente ficava analisando a postura das pessoas nos vagões. E sempre encontrava um olhar de julgamento ou uma fala preconceituosa, e aquilo sempre me aterrorizou.


2019. E eu querendo acreditar que tudo mudou, afinal hoje temos dezenas de Drag Queens no mundo pop nacional, temos mais visibilidade trans, temos mais produtos voltados ao público LGBT, enfim…  me preparei para a Parada com toda empolgação possível.  Comprei ate um moletom com as cores do arco-íris bem antes de eles serem vendidos por todas as redes de fast fashion do pais. Comprei maquiagem de arco-íris, esmalte... até um tênis de arco-íris eu comprei.


Dia 23 de junho de 2019. Acordei e comecei a me preparar pra Parada. O medo me atingiu. Olhei pra rua pela varanda do apartamento e tudo estava deserto. Se pelo menos estivesse passando algum grupinho indo pra Parada, eu me sentiria acolhido. Decidi não usar o tênis, não passar o esmalte fluorescente e… ah, eu queria tanto usar o moletom de arco-íris… nunca consegui usar no Brasil. Usei ele uma vez só em Londres, e mesmo lá me senti olhado por olhares julgadores. Assim como também fui olhado por olhares de “é isso ai, vai la garoto, estamos com você, corajoso…”. E não deveria ser assim… é apenas um moletom colorido, um pedaço de pano feito pra nos manter aquecidos.


Coloquei uma roupa normal e fui novamente pra varanda com a desculpa de ver se estava frio (caso estive calor, eu não precisaria do moletom e essa seria a minha desculpa), e novamente dei uma olhada na rua. Nada.


Achei melhor desistir do moletom. O medo gritava dentro de mim.


Sai de casa em direção ao metro, e o medo me possuiu. Cada pessoa que passava por mim, eu achava que já estava me julgando por eu estar indo para a Parada.


Shame! Shame! Shame!


Ao chegar no metro o medo passou. 


Vi pessoas bem mais coloridas do que meu moletom (se é que isso é possível, pois realmente o moletom é bem chamativo) e naquele momento eu percebi que  ao desistir de usar meu moletom, eu me entreguei ao medo de viver no Brasil e me arrependi de não estar com ele no corpo. Ele seria sim meu símbolo de luta.


Já na Parada, esse ano a paz reinou. Não havia julgamento, as pessoas estavam como queriam estar. Todas as tribos misturadas.


Mais lotados do que nos últimos anos e com alguns motivos pra isso. Shows de estrelas pop do momento como Luisa Sonza e Iza. Shows de Drags cantoras do pop como Gloria Groove e Aretuza Lovi. Shows de cantores estreantes como Matheus Carrilho ou de cantores velha guarda como Lulu Santos, e uma cantora internacional.


Pois e, Mel C.


Nos anos 90, ela e mais 4 garotas estavam no grupo Spice Girls que se utilizava da arte Drag pra encantar o mundo. Seus alter egos Ginger, Scary, Posh, Baby e Sporty nada mais eram que Drags nos palcos e nos clipes. Mel C, a Sporty Spice, encantou uma legião de lésbicas pelo mundo por ser uma referencia (talvez cliché) de mulher esportista que usa calças largas da Adidas.


Em 2011 regravou "Liebe ist Alles" da banda francesa Rosenstolz e com o nome de “Let There Be Love” fez um clipe com casais LGBTs.



Recentemente iniciou uma turnê com o grupo de Drags Sink The Pink e foi essa turnê que ela apresentou na Parada de São Paulo.


Mel C não é lésbica, não precisa de Pink Money (ela acabou de encerrar uma turnê milionária com as Spice Girls), e mesmo assim ela está em São Paulo erguendo a bandeira do arco-íris.

Eu tenho essa mesma força dentro de mim, mas não consigo colocar ela pra fora, não no Brasil.

E eu só queria usar meu moletom.

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